Alopécia: tratamentos complementares – mesoterapia, PRP…

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Desde que sei que tenho alopécia que chegar ao tratamento certo foi uma busca permanente! Se neste momento sinto a minha doença completamente controlada com o uso de medicamentos e outras estratégias, também esta é uma área particularmente apetecível para vários profisisionais que tentam “vender” tratamentos caros de eficácia variável (e por vezes até duvidosa). Por isso neste artigo vamos ver com o Dr. Rui Oliveira Soares, dermatologista e especialista em cabelo, os tratamentos complementares da alopécia e a sua eficácia: fotomodulação, microagulhamento, mesoterapia, PRP (plasma rico em plaquetas) e stem cells (células pluripotenciais).

Tratamento da alopécia com fotomodulação

Desde os anos 60 sabe-se que a estimulação com laser da pele de ratinhos poderia provocar engrossamento e crescimento do pêlo. Os tratamentos de fotomodulação são conhecidos pelo termo incorreto de Low Level Laser Therapy (LLLT). É incorreto porque outras fontes de luz não laser (LED, por exemplo) podem ter este efeito de bioestimulação sobre o folículo (fábrica celular que produz o cabelo) e porque o termo Low (baixo) é muito vago. Pensa-se que o principal mecanismo de atuação seria a estimulação das células pluripotenciais do folículo (stem cells), o que levaria a engrossamento e entrada do folículo em anagénese (fase proliferativa do ciclo capilar). Este efeito tem sido utilizado na alopécia androgenética (calvície comum) e na alopécia areata (doença auto-imune que provoca alopécia). A maioria dos ensaios clínicos controlados (13 em 16) encontraram uma melhora estatisticamente significativa dos pacientes quando comparados com controlos. Como são necessários tratamentos muito repetidos no tempo e mantidos, o mais prático é a utilização em casa de capacetes ou pentes que emitem a radiação que provoca o efeito terapêutico. Na prática clínica diária têm um papel reduzido porque as melhorias, embora documentadas, são mínimas quando comparadas com as obtidas com medicamentos (finasterida, minoxidil, etc.) e sobretudo atendendo ao dinheiro e tempo dispendidos. Pode ser entendido como um tratamento complementar, apenas no caso do paciente que não está limitado em recursos e em tempo e que quer acrescentar uns pozinhos (nunca uma diferença significativa) à melhoria obtida com tratamentos convencionais.

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Tratamento complementar da alopécia com estimulação mecânica – microagulhamento

Este tipo de estimulação – micro-agulhamento (microneedling) faz-se com agulhas finas integradas em dispositivos diversos – dermapen, rollers, etc – ou com uma simples agulha. O princípio é de que alguns fatores libertados durante o processo reparador da agressão mecânica provocada pela agulha teriam efeito benéfico sobre as células pluripotenciais do folículo e induziriam anagénese (fase proliferativa do ciclo capilar). Infelizmente, há muito poucos estudos em monoterapia (medicação única do paciente) contra placebo. Tem como principal vantagem ser simples e não necessitar aparelhos caros para efetuar o tratamento. Representa algum risco de infeção (múltiplas portas de entrada), carece de anestesia para não ser muito desconfortável para o paciente e obriga a repetições no tempo do tratamento. As melhoras obtidas são mínimas, e não deve ser encarado como um tratamento complementar de rotina. Pode combinar-se com tratamento farmacológico tópico com o objetivo de melhorar a penetração do fármaco (ex: seguido de aplicação de minoxidil), combinando assim o efeito mecânico ao efeito farmacológico.

Tratamento complementar da alopécia com mesoterapia

Mesoterapia, do grego antigo mesos (“médio”) y therapeia (“terapia”), chamado assim porque o nível em que as substâncias são injetadas é o sub-cutâneo e portanto derivado da mesoderme embrionária. Praticada há quase 70 anos, consiste em tratar as zonas afetadas com micro-injeções de medicamentos, vitaminas, minerais, aminoácidos, etc. Existem trabalhos válidos que mostram melhorias documentadas em ensaios controlados de mesoterapia na alopécia androgenética apenas com 2 substâncias – minoxidil e anti-androgénicos (finasterida, dutasterida). No entanto, o uso destes medicamentos em mesoterapia torna o tratamento absurdamente caro comparativamente à aplicação tópica (minoxidil) ou toma por via oral (minoxidil e anti-androgénios). O efeito Google de supostos efeitos adversos frequentes com os anti-androgénios têm tornado o uso destes medicamentos sob a forma de mesoterapia cada vez mais frequente. Podemos dizer que será uma forma de tratamento alternativo para quem não deseja a toma de medicamentos e possa efetuar este tratamento, que é mais invasivo e mais dispendioso.

Tratamento complementar da alopécia com PRP – plasma rico em plaquetas

Este tratamento consiste em retirar 15 a 20 ml de sangue do doente, centrifugá-lo, e obter uma fração do plasma que é rica em fatores de crescimento existentes nas plaquetas.  A administração faz-se em muitos pontos da área do couro cabeludo a tratar, de preferência após anestesia e com uma agulha de mesoterapia (muito fina). Estes fatores têm um efeito benéfico sobre as células pluripotenciais do folículo (stem cells) e induzem anagénese, o que se traduziria em cabelo mais grosso e menos queda de cabelo. São tratamentos em que a maioria dos estudos mostrou efeito contra placebo (melhora de espessura e densidade) e existem até trabalhos que comparam metade do couro cabeludo tratada com a não tratada. Apesar desta evidência, as melhoras na prática clínica são muito ligeiras quando usado isoladamente. Obriga a tratamentos periódicos. Existe alguma dissociação entre a satisfação do paciente (muita) e a melhora que o dermatologista objetiva (pouca). Isto pode dever-se ao facto de o paciente considerar uma melhora o facto de estar a cair menos cabelo, o que no longo prazo é irrelevante. O dermatologista avalia sobretudo diâmetro dos cabelos e densidade, o que justifica a disparidade na percepção doente/médico. De forma geral, podemos dizer que pode funcionar como tratamento complementar nos pacientes com alopécia androgenética, alopécia areata e deflúvio telógeno. Podemos considerá-lo um óleo da máquina folicular e nunca deve substituir-se ao tratamento principal (farmacológico). É um tratamento muito caro no longo prazo, sobretudo se atendermos ao fraco resultado se comparado com o tratamento farmacológico e com transplante de cabelo.            

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Tratamento complementar da alopécia com stem cells (células pluripotenciais)

Estas células, indiferenciadas, podem originar vários tipos celulares diferentes. Quando se dividem, podem originar novas células indiferenciadas ou tornar-se em diferentes tipos celulares. No folículo capilar há duas populações, no bulge e no bulbo (parte mais profunda do folículo). Há várias modalidades possíveis: 1. Obter estas células por biópsia da pele do couro cabeludo, processá-las mecanicamente e injetar numa parte do couro cabeludo. A principal limitação é que obtemos apenas umas poucas centenas de células. 2. Usar stem cells mas não do folículo: obtidas por aspiração do tecido adiposo, da medula óssea ou do cordão umbilical. Permite obter largos milhares de células e tratar áreas maiores do couro cabeludo. 3. Obtenção de stem cells foliculares por biópsia, isolamento e multiplicação celular em laboratório para posterior injeção de milhões de células. 4. Como em 3, mas construindo-se a partir das células multiplicadas um folículo em laboratório, que é posteriormente implantado no couro cabeludo. Os dois primeiros já se praticam, com melhoras de espessura e densidade na área injetada de cerca de 20% e custando alguns milhares de euros. O terceiro já foi praticado mas com maus resultados. O quarto será o futuro, mas parece ainda estar longe. Em resumo, podemos dizer que são tratamentos em fase experimental, muito caros, mas que no futuro podem ter uma utilidade clínica evidente, já que na quarta modalidade se poderia obter número de cabelos infinito a partir de uma única biópsia de pele do couro cabeludo.

Rui Oliveira Soares (dermatologista)

Até hoje nunca fiz qualquer tratamento destes. Sinto eficácia com o tratamento medicamentoso, é prático e muito mais acessível que qualquer outra destas opções atrás descritas. Posso vir a experimentar o PRP, mas sempre com a perspetiva de ser um add on e nunca em monoterapia. Os medos sem sentido que as pesquisas no Dr. Google colocam à disposição de qualquer pessoa, levam a que muitos doentes com alopécia prefiram a terapêutica não medicamentosa, muito mais cara e com eficácia inferior.

Já fizeste algum destes tratamentos?

Fotografia: Yellow Savages

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6 comentários

  1. Flávia Ribeiro diz:

    Que bom ter o parecer técnico do Dr Rui quanto a este tema! Mais uma vez um artigo cheio de utilidade e rico em informação.
    O tema das células estaminais é dos que mais me desperta interesse e esperança, especialmente depois de ter descoberto o trabalho da incrível Dra Angela Christiano.
    Por outro lado, estou cheia de vontade de experimentar o microneedling como complemento ao meu tratamento.
    Uma vez mais obrigada, Joana, por esta publicação super completa e isenta!

    1. Joana Alvares diz:

      Muito obrigada pelo teu comentário, Flávia! Relativamente ao tratamento medicamentoso, ele é bastante eficaz, e estas terapêuticas complementares, embora não tirando o papel do tratamento medicamentoso, poderão em determinados casos ser um “add-on”. Tenho curiosidade no PRP e a mesoterapia tem alguns resultados interessantes. Um beijinho! Joana

  2. Marta Santos diz:

    Parabéns pelo artigo. Para mim foi crucial! Fui a uma clinica e prescreveram-me um tratamento que mistura os vários tratamentos complementares aqui abordados. Era um tratamento extremamente dispendioso o que me deixou, naturalmente, reticente. Lendo outro post desta página decidi procurar um dermatologista mais direccionado para a tricologia antes de avançar com qualquer tratamento complementar. Mais uma vez muito obrigada!

    1. Joana Alvares diz:

      Muito obrigada pelo teu feedback! Sim, é importantíssimo verificar com um especialista da área, neste caso dermatologista especializado em cabelo, se este tipo de “tratamento” faz sentido. As terapêuticas medicamentosas são muito eficazes e acessíveis, em comparação com estes tratamentos, que, como referido, podem ser complementares. Um grande beijinho, Joana

  3. Sofia diz:

    Olá Joana! Antes de mais quero agradecer pelo teu blog porque de facto é bastante esclarecedor. Tenho 2 perguntas.
    Quando é que o tratamento com stem cells estará disponível no mundo? (se é que já se pratica, não sei) E em Portugal?
    O meu cabelo começou a cair devido a uma coloração que ficou mais tempo do que o necessário. O minoxidil continua a ser melhor do que tratamentos como LLLT ou microneedling?
    Muito obrigada

    1. Joana Alvares diz:

      Olá Sofia! Viva! Quanto ao tratamento com stem cells não te consigo para já esclarecer. Quanto à terapêutica medicamentosa continua a ser mais eficaz que outras terapias e com um custo muito inferior. Eu não faço terapias complementares por esse motivo. Só tratamento medicamentoso. Um beijinho! Joana

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