Transplante capilar: saber para além do óbvio

transplante capilar

O transplante capilar pode parecer uma solução para todas as pessoas com queixas de falta de cabelo ou perda de densidade capilar, mas a realidade é que nem todas as pessoas são boas candidatas, podem existir complicações pós-operatórias e a boa prática clínica nunca será a utilização deste recurso como tratamento único. Existem ainda muitos mitos associados ao transplante capilar. Por este motivo, convidei a Dra. Filipa Osório, dermatologista que faz consulta de cabelo e transplante capilar na Clínica de Dermatologia Prof. Sofia Magina no Porto, a escrever este artigo após a apresentação On Hair Transplantation que fez na 2ª Reunião do Grupo Português de Tricologia e Onicologia, em Lisboa, no passado mês de Novembro.

Transplante capilar – âmbito deste artigo

Dra. Filipa Osório: Há várias designações para este tipo de procedimento médico-cirúrgico, desde implantes capilares a microtransplante ou minitransplante. Ao longo do artigo vou usar a terminologia médica consensual que é Transplante Capilar.

Vou-vos falar sobre a seleção dos doentes, o desenho da área a transplantar e complicações pós-operatórias, mostrando também alguns vídeos sobre como fazemos o procedimento na Clínica de Dermatologia Prof. Sofia Magina, no Porto.

Transplante capilar e seleção dos doentes

Nem todos os doentes com alopécia (queda de cabelo) são bons candidatos para um transplante capilar. É fundamental ser-se observado primeiro em consulta de dermatologia, para ter um diagnóstico correto. Há alopécias que não devem ser transplantadas, pelo menos não numa fase inicial, até controlar a doença.

O candidato ideal para um transplante capilar é o doente com calvície (alopécia androgenética), que já está a fazer tratamento médico há pelo menos 6 meses, com uma boa área dadora, sem outras doenças e com uma idade e expectativas adequadas.

Mas há outras alopécias que também podem ser submetidas a transplante capilar, nomeadamente alopécias cicatriciais como a alopécia fibrosante frontal. Nestes casos, só se deve considerar o transplante se a doença não tiver progredido durante 1 a 2 anos antes do procedimento. O seu médico dermatologista poderá dizer-lhe se a sua alopécia está estável registando fotograficamente as áreas afetadas em cada consulta. Eu utilizo um equipamento de dermatoscopia digital computorizada (Fotofinder) para fazer controlo fotográfico e dermatoscópico dos meus doentes com alopécia.

O que é uma boa área dadora em transplante capilar? Em que idade se pode fazer um transplante?

transplante capilar

O que é uma boa área dadora? A área dadora é geralmente a nuca (região occipital) e é daqui que se retira o cabelo para implantar na zona recetora, mais frequentemente o topo cabeça. Um candidato com uma má área dadora é aquele que tem baixa densidade na nuca, que sofre de alopécia difusa, que já fez outro transplante capilar ou que tem uma área recetora muito extensa.

Relativamente à idade, não se recomenda a realização de transplante capilar nos homens abaixo dos 23-25 anos. Nas mulheres, não há uma idade limite.

Transplante capilar e expectativas

O doente deve ter expectativas adequadas quando vai fazer um transplante capilar. No caso de um homem com calvície, o cabelo transplantado tende a manter-se ao longo da vida, mas o cabelo nativo da área recetora vai manter a tendência a continuar a cair, se não fizer tratamento médico associado. Por isso, quando proponho um transplante a um doente jovem, planeio de forma a que o resultado continue a ter um aspeto natural quando ele tiver 50 ou 60 anos. Neste sentido, a linha de implantação frontal (linha onde começa o cabelo) não deve ficar muito baixa, não menos de 7 a 9 cm até ao ponto médio entre as sobrancelhas. Por outro lado, o doente deve ser informado que o transplante não vai curar a queda de cabelo e que deverá manter o tratamento médico ao longo dos anos.

Transplante capilar: desenho da área a transplantar em homens e mulheres

Numa calvície masculina, a prioridade num transplante deve ser reconstruir o triângulo anterior do topo da cabeça, que é aquele que dá o contorno do rosto. O homem caucasiano caracteriza-se naturalmente pela presença de entradas, que podem ser corrigidas, mas não completamente eliminadas aquando de um transplante. Já um homem de origem africana tem a sua linha de implantação mais reta, devendo estas diferenças ser tidas em conta aquando do planeamento.

A maioria das mulheres com calvície não tem alteração de linha onde começa o cabelo, tendo diminuição da densidade no topo da cabeça. Nestes casos, fazer um transplante significa preencher, dando densidade. O cabelo não é colocado de forma simétrica propositadamente, a não ser que a doente use risca ao meio. Geralmente colocamos mais cabelo à esquerda se ela usar risca à esquerda ou à direita no caso oposto. Uma das coisas que mais incomoda as senhoras é ver o couro cabeludo à transparência quando se olham ao espelho. Por isso, num transplante, devemos dar densidade na zona média anterior, em que essa transparência geralmente é mais aparente.

Há outras mulheres que apresentam testa alta e entradas, que pretendem que seja colocado cabelo à frente, de forma a ficarem com um contorno facial mais arredondado e uma linha de implantação mais feminina.

Nas fotografias abaixo, apresentam-se casos de doentes tratados por mim, na nossa clínica, com recurso a fármacos e transplante capilar.

transplante capilar antes e depois

Exemplo 1

transplante capilar antes e depois

Exemplo 2

transplante capilar antes e depois

Exemplo 3

Transplante capilar: técnica FUE

De referir ainda que as mulheres não têm de rapar o cabelo todo para realizar um transplante capilar. Na grande maioria, rapa-se apenas uma janela na área dadora para realizar a técnica FUE (Folicular Unit Extraction), que é a técnica que usamos na nossa clínica. O restante cabelo ajuda a tapar essa janela e as senhoras podem andar com o cabelo solto ou preso, sem haver um impacto estético significativo. Neste sentido aconselho as minhas doentes a terem um comprimento médio ou longo aquando do transplante (mínimo pelos ombros).

transplante capilar técnica FUE mulheresCirurgia de transplante capilar

Na Clínica de Dermatologia Prof. Sofia Magina, no Porto, um transplante capilar dura em média 8 a 10h, desde a admissão até à saída do doente. Fazemos o procedimento sob anestesia local, estando eu e 2-3 enfermeiros em sala, ao longo de toda a cirurgia. Não o considero um procedimento doloroso, mas pode ser aborrecido. Particularmente durante a colheita dos folículos da área dadora, quando se está deitado de barriga para baixo, no período da manhã. A sedação oral com midazolam ajuda a relaxar e, nalguns casos, a dormir nesta fase. No período da tarde, quando é feita a implantação, o doente pode ver um filme se desejar, porque está deitado de barriga para cima com a cabeceira levantada.

Seguem alguns vídeos de diferentes momentos de um transplante capilar na clínica.

Chamo a atenção que estes vídeos, pelo seu conteúdo médico cirúrgico, podem ferir a suscetibilidade das pessoas mais sensíveis.

Vídeo 1. Anestesia da área dadora
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Vídeo 2. Colheita dos folículos da área dadora: corte com punch / biótomo
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Vídeo 3. Colheita dos folículos da área dadora com pinças
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Vídeo 4. Colocação dos folículos em placa de Petri para serem levados até ao microscópio
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Vídeo 5. Contagem dos folículos e separação em unidades de 1, 2, 3 ou 4 cabelos no microscópio
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Vídeo 6. Realização das incisões na área recetora
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Vídeo 7. Colocação dos folículos nos implantadores
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Vídeo 8. Implantação dos folículos na área recetora
YouTube video
Transplante capilar e complicações pós-operatórias

Na consulta pré-operatória, defino em conjunto com o doente o desenho da área a implantar e explico como decorre habitualmente a cirurgia e o pós-operatório. Peço também análises pré-operatórias e envio as minhas indicações pré e pós-operatórias por escrito ao doente. Cedo também o meu contacto telefónico, caso surjam dúvidas, mais comuns no pós-operatório.

Felizmente, as complicações pós-operatórias do transplante capilar são tipicamente ligeiras e reversíveis.

A dor não é um sintoma frequente no pós-operatório da técnica FUE.

O edema facial na primeira semana após a cirurgia é quase incontornável, por isso, aconselho os doentes a ficarem em casa. Podem trabalhar, mas sem videochamadas!

A área dadora cicatriza rapidamente e aos 7-10 dias já não se observam crostas. Na área recetora, as crostas podem demorar até 4 a 6 semanas a cair. Depois de caírem as crostas, a pele subjacente apresenta-se com um eritema ligeiro (rosada), cor que vai desaparecendo ao longo dos meses seguintes.

Resultados do trasplante capilar

Os resultados do transplante começam a ver-se geralmente a partir dos 4 meses e melhoram até aos 12-18 meses. É importante explicar ao doente que é normal o cabelo transplantado cair 2 a 6 semanas após a cirurgia. E que, nalguns casos, o cabelo nativo, à volta do transplantado, também pode sofrer um eflúvio (queda). Isto observa-se nos doentes que ainda têm cabelo na área a transplantar, particularmente em mulheres.

Alguns doentes reportam prurido ou alteração da sensibilidade algumas semanas após o transplante, mas geralmente são sintomas ligeiros que não incomodam ou deixam de incomodar pouco tempo depois.

Quando os cabelos estão a nascer, sobretudo na zona recetora, podem surgir pseudofoliculites, pequenas borbulhas tipo espinhas, que correspondem a pelos/cabelos encravados. Geralmente são em pequeno número e autolimitadas no tempo.

A complicação mais temida no pós-operatório, que felizmente nunca presenciei, é a necrose da pele, que se pensa estar mais frequentemente associada a transplantes de um número excessivo de unidades foliculares.

Em conclusão

O transplante capilar é um procedimento útil e eficaz nos doentes com alopécia, mas nem todos têm indicação cirúrgica. Se está a perder cabelo, consulte o seu dermatologista, ele vai fazer um diagnóstico e orientá-lo no tratamento do seu problema em concreto. Nos últimos anos, surgiram novos tratamentos medicamentosos, muito eficazes e com menos efeitos secundários, que o poderão ajudar e eventualmente adiar a necessidade do transplante por alguns anos.

O transplante não cura a calvície. Se não fizer tratamento médico associado, a calvície vai provavelmente continuar a progredir, podendo, mais à frente, já não ter cabelo na área dadora para fazer um novo transplante.

Dra. Filipa Osório, dermatologista

Outros artigos que poderão interessar sobre cabelo e transplante capilar

Ainda sobre este tema, poderá ser útil a consulta dos seguintes artigos:

  • Cosmética capilar, pela Dra. Filipa Osório, aqui
  • A minha experiência com microtransplante capilar, aqui
  • Tudo sobre transplante capilar, pelo Dr. Rui Oliveira Soares, aqui
  • Pode ainda ser útil consultar este live sobre transplante capilar com o dermatologista Dr. Rui Oliveira Soares, onde falamos de alopécia, tratamento e transplante capilar e em que situações deve o transplante ser indicado, tal como o microtransplante, técnicas de transplante, procedimento e pós procedimento.

 

Fotografias de casos clínicos: gentilmente cedidas pela Dra. Filipa Osório

Fotografia: Márcia Soares

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