Ser mãe ou ter um emprego. É preciso escolher?

emprego

Nesta rentrée é preciso falar sobre isto! Durante 15 anos trabalhei em gestão na Indústria Farmacêutica e foi um desafio (muitas vezes desesperante) dividir-me entre o meu emprego e os meus filhos, para os quais eu sempre quis estar presente. Para acompanhar e educar. E muito importante, para saber deles. No regresso ao trabalho, quantas são as mães e os pais que continuam a ter de escolher entre a família (ou a sua saúde) e o seu emprego?

As crianças passam demasiadas horas nas escolas

Há uns dias vi uma publicação sobre as demasiadas horas que as crianças passam nas escolas. Quem o refere é Carlos Neto, professor e especialista em motricidade humana, conhecido por dizer que brincar é um assunto sério e é com determinação que defende que as crianças não podem ser vítimas do emprego dos pais, que as crianças não podem passar 50 horas por semana na escola e que as crianças portuguesas brincam menos que os prisioneiros nas prisões.

A escola não devia ser o refúgio de uma sociedade que precisa urgentemente de uma reforma. Dizer que as crianças passam tempo a mais na escola e passar 100% da responsabilidade para os pais não faz sentido (quando muitos pais não têm qualquer alternativa). É necessária (e urgente!) uma reestruturação do modelo atual de sociedade e mesmo da legislação laboral. Menos horas de trabalho presencial (há tanto que pode ser feito de outra forma), menos ansiedade e stress, mais bondade, mais tempo para “mim” e empatia. Mais tempo para ter saúde. Pais e filhos têm de conseguir passar mais tempo juntos. E as pessoas precisam de ter tempo para si. Noutros países da Europa isso é possível. Existe a possibilidade de redução horária, existem part-times. Os pais conseguem conciliar a profissão e a família (não têm de “escolher”). O que falta então?

O tudo ou nada

Tenho amigos e amigas a viver fora do país ou que já viveram fora. Uma delas, a trabalhar na área da investigação clínica, diminuiu a carga horária do trabalho para ter mais tempo para ir buscar as crianças à escola, dar-lhes as refeições, estar presente e EDUCAR. Há inúmeros países onde se pode optar por reduzir os horários ou mesmo trabalhar em part-time. Não pode ser o tudo ou nada. Ou 80 horas de trabalho por semana (como me aconteceu tantas vezes) ou zero. As pessoas querem ter um trabalho, mas querem também ter saúde, uma família e tempo.

Estar presente e educar deveria ser uma preocupação da sociedade no seu todo. Porque é que não temos as ferramentas para tal? A sociedade não pode alavancar-se em avós (que podem estar a trabalhar ou não ter condições para tal), em ATL’s e atividades (onde as crianças passam horas depois da escola) e em empregadas e amas. Os pais têm de lá estar, para acompanhar e educar. E as crianças precisam de descansar, de dormir as horas suficientes, de brincar e de ver os seus pais (exaustos) de outra forma!

Trabalhava para pagar a quem tomasse conta dos meus filhos

Quando pus o meu filho na creche aos 6 meses doeu-me o coração. Depois de vários meses em que passou o tempo doente, com as minhas sucessivas faltas ao emprego não tivemos outra alternativa senão pagar para ter uma pessoa em casa a tempo inteiro para tomar conta dele. E mais tarde da minha filha também. Mas essa também não era a solução ideal, por tantos motivos. Sentia que trabalhava para pagar a quem tomasse conta dos meus filhos e a quem os trouxesse da escola para casa.

Nunca mais me esqueço quando numa entrevista de emprego me perguntaram: “A Joana, com dois filhos pequenos, como faz para se conseguir dedicar à sua profissão?”. Como responder a isto? Implicitamente eu sabia que me estavam a perguntar se queria trabalhar ou ser mãe (como se veio a verificar mais tarde).

Conciliação familiar de verdade

Trabalhar das 9h às 18h (ou das 8h às 20h ou estar deslocada de casa como me aconteceu tantas vezes) tornou-se banal. Mas e os pais que têm horários rotativos das 9h à meia noite, sem fins de semana ou feriados para equilibrar a balança? E os pais a solo? E os que ganham ordenados miseráveis que sofrem para pagar as coisas básicas para a sua dignidade e são escravos do emprego e só contam com a escola porque não têm mais nada? Tem de existir conciliação familiar de verdade. Os pais deviam poder reduzir o tempo de trabalho sem temer ou sofrer consequências.

O “sistema” conduz cada vez mais a este desequilíbrio.

Quando o escape é o empreendedorismo (e quantos o conseguem fazer?)

A minha vida mudou completamente quando, depois do burnout pelo qual passei (falei sobre o tema aqui), decidi criar o meu projeto. Assim numa frase parece fácil o trajeto que me levou mais de 2 anos, muito investimento de tempo (e dinheiro) e a decisão de arriscar. E arrisquei porque conhecia e trabalhei muitos anos na área, tinha experiência de 15 anos em gestão e não senti medo – acreditei em mim e nas minhas capacidades.

De repente a “vida começou”. De repente tinha tempo para ir buscar os meus filhos à escola ou passar as férias com eles. De repente também tinha tempo para mim e para cuidar da minha saúde. E tudo isso enquanto trabalhava (sem horários rígidos mas com muita responsabilidade sobre o meu projeto). Mas a poder fazer isso a partir de qualquer lado, da minha casa, com gosto, com paixão e com muito menos stress (mas outros associados ao empreendedorismo, sempre tão romantizado).

Não me sinto exausta ou em absoluto stress. Consigo ter a minha profissão e ser mãe, finalmente. E ter saúde. E é pena que só tenha descoberto isso 15 anos depois de ter começado a trabalhar. A questão é: quantas pessoas é que nunca irão descobrir?

 

Fotografia: Márcia Soares

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