Rentrée em 3, 2, 1: as resoluções que mudam tudo

rentrée

Não sou muito de resoluções de ano novo ou na rentrée em Setembro. Prefiro que as minhas decisões se façam à medida dos dias, sem me prender ou ter de adicionar listas de coisas à já complicada gestão do dia a dia. Mas neste verão algo mudou. Antes mesmo de férias desacelerei. Depois da organização do Foyer Health & Beauty Summit estive bastante em baixo por motivos de saúde, quase 1 mês doente (e 15 dias de cama). Percebi que tinha de rever os meus horários, as minhas to-do lists e o meu perfil de me estar sempre a embrenhar em mais um projeto. Parei. Refleti. Estive muitos dias de cama com um sono e um cansaço brutais (como nunca). Achei que tinha de rever o período pré-férias (e tirei uma semana não prevista no fim de Junho). E isto levou-me a começar Setembro como nunca. Uma rentrée realmente diferente. Este ano, o regresso ao trabalho não é sobre fazer mais. É sobre fazer melhor: dormir mais, reduzir o stress, repensar hábitos, dizer mais vezes que não e voltar a dar espaço às coisas que realmente importam.

A silly season: por que decidi desacelerar antes de férias

O mês de Julho é sempre um mês a todo o gás para mim. Penso que enquanto empreendedora sempre tive muita dificuldade em desligar a cabeça que funciona como um cronómetro, com receio de que algum momento de descanso seja um desleixo ou uma perda de tempo. Mas aprendi com a idade que, longe de ser uma máquina, estou mais humana que nunca, mais frágil que nunca (não no sentido literal, mas a aprender a ceder e a dar-me uma folga). Sou normalmente a pessoa que diz que vai desligar o computador às 18h, mas que fica a trabalhar até às 19h30 e que responde a mensagens até à noite. Cansei-me. Por algum motivo saí do mundo corporativo. Tenho uma enorme responsabilidade relativamente ao meu trabalho, mas não sou tão eficaz e rápida se estou cansada. “Estoirada” foi a palavra que repeti vezes sem conta nos últimos meses antes do verão. Por isso uma das decisões que tomei para reduzir o stress antes da rentrée foi desacelerar o ritmo de trabalho durante o mês de Julho. Cheguei a férias sem a necessidade de desmaiar para descansar ou a ter de me compensar pela exaustão. Foram férias mesmo muito boas. Dormi até o meu corpo querer. Li. Fiz praia ao fim da tarde. Vi o pôr do sol várias vezes. Refleti.

Rentrée sem álcool: a decisão não planeada

Não foi pensada esta rentrée assim. Desde miúda que via os meus pais a beber o seu copo de vinho ao jantar. Era o seu ritual. E que de alguma forma ficou enraizado na minha perceção de vida. Lembro-me de termos um porta garrafas para não sujar a mesa (que sobrevive até aos dias de hoje) que dizia: A dinner without wine is like a day without sunshine. Durante muitos anos foi assim. Um ritual que fazia parte do dia a dia. Uma forma de relaxar talvez. Nas férias o meu marido disse-me que não iria comprar vinho e não me fez confusão. Aceitei como parte das férias e nem precisava desse estímulo extra para relaxar. Já vinha em modo calmo. Na verdade, ao longo dos anos, tornou-se um ciclo: stress – álcool para relaxar – sono pior – mais cansaço e stress – vontade de beber novamente. Mas tudo isso parou. Porque o stress deixou de existir. E porque ao longo de muitos meses acompanhei muita informação neste sentido e estou muito mais esclarecida relativamente ao consumo de álcool (a OMS considera que não existe um nível de consumo considerado completamente isento de risco: vale a pena ler este artigo, precisamente da OMS). Na verdade penso que era uma decisão adiada. Nesta rentrée fiz esta publicação que chegou a milhares de pessoas. E que ecoou com o feedback que recebi.

O que notei em mim? Perdi peso, estou a dormir melhor e sinto a minha pele diferente, mais luminosa, lisa e hidratada. Estou menos cansada, mais ciente que preciso das pausas necessárias a uma boa saúde mental e bastante mais bem-disposta. São mudanças que noto no meu corpo e na minha rotina, não uma promessa de que deixar o álcool produzirá exatamente os mesmos resultados em todas as pessoas. Também sinto que a minha tolerância ao álcool foi diminuindo com a idade. E qualquer noite mal dormida leva muito tempo a recuperar. Tenho bebido água com gás e já fiz descobertas bem interessantes nesta área.

Uma rentrée mais calma: menos stress, mais nãos e menos tarefas

Sou obcecadamente organizada. Acho que é por isso que consigo fazer tantas coisas ao mesmo tempo. Se até aqui isso facilitou muito a minha vida pois levou-me a chegar a sítios que nem pensava, a verdade é que isso veio com um preço: stress acumulado, a cabeça que não deixa de pensar, uma certa exaustão de base e a viver a um ritmo mais acelerado que a própria aceleração da vida. Não posso continuar assim. Nem ninguém pode. Respostas para ontem, agenda atropelada com mil tarefas e conciliar tudo enquanto acompanho os meus filhos, que, sendo adolescentes, precisam mais que nunca de bases sólidas. Tenho de cá estar. E mais. Não sei se foi uma decisão muito pensada, mas este ano percebi que tinha de dar mais importância à minha saúde física e mental. Não posso aceitar situações de trabalho que me obrigam a acordar a meio da noite ou a encher a agenda ao ponto de não conseguir parar e organizar as minhas ideias e os meus próprios projetos (inclusive pessoais). Entrei na espiral do empreendedorismo, sempre on, sempre a produzir.

Acabei de me lembrar que há muitos anos fiz uma consulta de medicina de trabalho onde o médico, sem saber, tocou num dos pontos mais frágeis da minha existência perfeccionista. E me disse: “Sabe que o dia tem 24 horas por algum motivo: 8 para trabalhar, 8 para dormir e 8 para si”. Isto continua a ecoar na minha cabeça à medida que as 8 horas para mim foram sendo engolidas por tarefas diversas, filhos, filhos, filhos, filhos, filhos, mais trabalho, menos horas de sono. Hoje sei que tenho de olhar para a minha vida mais assim. 8 | 8 | 8. Porque nem todo o crescimento é bom crescimento. Muitas vezes o próximo passo não é acelerar. É rever a vida, perceber onde estou a ser menos rentável, melhorar processos. Porque crescer só porque sim não é viável. Apenas mais pressão sobre os mesmos problemas.

Rentrée como no início do projeto Beautyst: voltar ao que realmente importa

queda de cabelo

Há quase 8 anos colocava o meu site online. Na altura, e depois de 15 anos na Indústria Farmacêutica, os últimos a um ritmo verdadeiramente assustador e infeliz (não infeliz no que fazia, mas na pressão absurda, na ausência de descanso e no desrespeito das coisas mais básicas da vida humana), decidi abraçar o empreendedorismo porque precisava de ter tempo para acompanhar os meus filhos. Tenho um trauma gigante na minha vida: ter perdido o meu pai aos 18 anos. Isto moldou-me ao ponto de saber que não queria que me acontecesse o mesmo. Estar para os meus filhos é oxigénio. Eles não se tornaram o que são hoje sem ninguém. É importante terem bases, terem os pais, sentirem-se amados e serem educados. Ninguém educa ninguém se está sempre ausente.

“Devias ter pensado nisso antes de engravidar” disse-me a minha chefia quando, com o meu primeiro filho, eu referi que ia entrar mais cedo e sair mais cedo para conseguir ir buscar o Duarte à escola. Ao escrever estas linhas percebo como é ridícula a vida. Como desperdicei anos do crescimento deles. Mas, em 2019, tudo mudou. Tinha o meu projeto e também tempo para os ir buscar ao colégio, conversar, passear. Eles já não se lembram da mãe senão no registo “presente” e ainda bem. É isso que quero para mim. Provei todos os meus pontos (por mim), cheguei a sítios que não pensava serem possíveis. Agora é hora de pensar que vou fazer 48 anos, que a vida é curta e que mereço mais.

 

Talvez esta seja a minha verdadeira resolução de rentrée: menos, mas melhor. O que significa rentrée? Para muitos é o regresso do stress, noites mal dormidas, sermos engolidos pela vida. Mas nesta rentrée tomei 5 decisões: desacelerar antes de chegar à exaustão, dar prioridade ao sono e ao descanso, repensar o consumo de álcool (parei mas não é uma decisão castradora), dizer mais vezes que não, fazer crescer a vida e não apenas o trabalho. Por que é importante desacelerar antes do regresso à rotina? Porque não sou uma máquina. Porque com mais stress e cansaço a produtividade baixa e a necessidade de compensação está sempre presente (seja o que for: compras, comida, vícios).

Como criar uma rentrée com menos stress? Fazer mais pausas naturalmente (hoje depois de ter preparado tudo para a minha filha levar para a escola estive 5 minutos na varanda a apanhar sol e acabei de escrever este artigo e vou parar mais). Inverter a velocidade. Por vezes é preciso meter a marcha atrás para a direção se equilibrar. E não ter peso na consciência porque não é possível ter tudo ao mesmo tempo. Aos 48 anos, já não quero provar que consigo fazer tudo. Quero escolher melhor aquilo que vale a pena fazer.

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