Sem Pausa: menopausa sem mitos, simples e descomplicada

Sem Pausa Menopausa

No meu site gosto de falar de beleza de forma integrada, porque bem-estar, saúde e conhecimento caminham lado a lado. A menopausa continua a ser uma fase da vida feminina envolta em mitos, dúvidas e, muitas vezes, falta de informação clara. Por isso, estive à conversa com a Rita Avelar da Silva, farmacêutica, nutricionista e fundadora do projeto Sem Pausa, uma plataforma dedicada à literacia em saúde da mulher na menopausa. Nesta conversa, explica como nasceu este projeto e partilha uma visão integrada baseada em ciência sobre esta transição natural da vida das mulheres. Sou suspeita, mas vale a pena ler TUDO!

Rita, conta-me um pouco sobre ti e sobre o teu percurso profissional.

Sem Pausa Menopausa Rita Avelar da Silva

Rita Avelar da Silva: Olá Joana! O meu percurso tem sido bastante diverso. Tive a oportunidade de trabalhar em projetos muito variados e de viver em vários países. Essas experiências moldaram a forma como hoje olho para a saúde e ajudaram a construir a minha perspetiva sobre o que significa cuidar das pessoas.

Sou farmacêutica e também licenciada em Nutrição e Engenharia Alimentar. Ao longo da minha carreira passei por contextos profissionais muito diferentes, o que me deu uma visão abrangente da saúde. Trabalhei como farmacêutica hospitalar em Portugal e no NHS em Londres e, mais tarde, na indústria farmacêutica, no departamento médico de uma das maiores empresas do setor, também em Londres, numa função que ligava ciência, medicina e as operações comerciais.

Mais tarde fui viver para a Suíça, tive uma filha e decidi dedicar-me à maternidade a tempo inteiro durante dois anos. De regresso a Portugal, trabalhei em consultoria em projetos sobretudo na área do cancro da mama, sempre numa interface muito próxima entre ciência, medicina e análise estratégica do mercado da saúde.

Paralelamente, acompanhei durante vários anos muitas mulheres em consulta de nutrição, muitas delas na década dos 40 anos, com queixas frequentes de aumento de peso, gordura abdominal, alterações metabólicas e cansaço permanente. Foi também nesse contexto que fui percebendo melhor muitos dos desafios que as mulheres enfrentam nesta fase da vida, particularmente no que diz respeito ao peso e à saúde cardiometabólica.

Sou membro da International Menopause Society e da European Menopause and Andropause Society, e tenho investido de forma consistente em formação específica nesta área. Hoje, o meu trabalho está muito focado na literacia em saúde da mulher na menopausa através do projeto Sem Pausa.

Porque é que te interessaste tanto pela área da menopausa?

Sem Pausa Menopausa Rita Avelar da Silva

Apesar de ser profissional de saúde há mais de 20 anos, eu própria não reconheci os meus primeiros sintomas de perimenopausa. Esse momento foi um verdadeiro ponto de viragem para mim. Percebi, na prática, que existe um enorme vazio de informação clara, acessível e baseada em evidência científica. Percebi também que muitas mulheres vivem alterações importantes, físicas e emocionais, sem entender o que está a acontecer no seu corpo. E quando não entendemos, ficamos mais vulneráveis ao medo, à culpa e às soluções pouco fundamentadas.

A menopausa não é uma doença, é uma transição fisiológica. Mas é uma transição que, para muitas mulheres, pode ter um impacto importante na qualidade de vida e na saúde futura. O meu interesse nasceu dessa necessidade de criar algo que me pudesse ajudar a mim e a outras mulheres a viver esta fase com mais confiança e tranquilidade. O meu objetivo é traduzir a ciência em linguagem simples e ajudar as pessoas a tomarem decisões informadas e conscientes, sem alarmismo, mas também sem banalização ou estereótipos.

O que é o projeto Sem Pausa?

O projeto Sem Pausa é uma plataforma digital dedicada à menopausa, criada com o objetivo de oferecer informação fidedigna, atualizada e prática, com o contributo de médicos especialistas reconhecidos nas suas áreas, desde a ginecologia, medicina geral e familiar, neurologia, reumatologia, dermatologia e psicologia, entre outras. Para mim, isso é uma condição indispensável. No site abordamos temas como sintomas, terapêutica hormonal, alimentação, saúde mental, saúde óssea e estilo de vida. Nas redes sociais, procuro traduzir conceitos complexos em mensagens simples, sempre com rigor científico. No fundo, o objetivo do projeto Sem Pausa é ajudar as mulheres a compreender melhor o que está a acontecer no seu corpo e a tomar as melhores decisões sobre a sua saúde.

O nome “Sem Pausa” tem um significado muito simbólico para mim: pretende enfatizar a ideia de continuidade e movimento e desafiar o estigma de que a menopausa é um fim. É verdade que marca o fim da nossa vida reprodutiva, mas pode também marcar o início de uma etapa com mais liberdade, mais maturidade emocional e maior clareza sobre o que queremos para os próximos anos.

A quem se destina?

Este projeto foi pensado sobretudo para mulheres a partir dos 35 anos que querem preparar-se de forma informada para a perimenopausa e menopausa, ou que já estão a viver sintomas e procuram orientação credível. Mais do que explicar sintomas, procura promover uma visão mais ampla desta fase da vida, com foco na saúde a longo prazo, na autonomia e na literacia em saúde.

Quais são os teus 3 conselhos práticos para quem se pretende preparar para a chegada da menopausa?

Sem Pausa Menopausa

Eu gosto muito desta pergunta e costumo responder sempre da mesma forma.

Primeiro: aprender o mais possível a partir de fontes credíveis. Passamos anos a estudar e a investir na nossa formação profissional, mas sabemos muito pouco sobre o funcionamento do nosso corpo, sobre o ciclo menstrual e sobre a (peri)menopausa. E depois, quando os sintomas aparecem, muitas vezes não sabemos identificá-los nem sabemos como agir. Não é preciso saber tudo sobre menopausa, mas é fundamental ter conhecimento suficiente para reconhecer o que está a acontecer no nosso corpo, pedir ajuda quando for necessário e fazer escolhas informadas para viver com mais confiança. Não podemos estar preparadas para algo que não sabemos o que é.

Segundo: ter um estilo de vida minimamente estruturado. Não é possível ter uma boa perimenopausa com um mau estilo de vida. Nem podemos esperar sentir-nos bem quando levamos uma vida que nos faz sentir mal. Se dormimos pouco, comemos de forma desorganizada, passamos o dia sentadas, não treinamos, vivemos sob stress contínuo ou consumimos álcool para “relaxar”, dificilmente estaremos no nosso melhor, com ou sem perimenopausa. Se aos 20 e aos 30 anos fomos conseguindo “passar entre os pingos da chuva”, muitas vezes à custa de noites mal dormidas, excesso de trabalho, má alimentação e sedentarismo, agora a margem de tolerância é muito menor. O estilo de vida não resolve tudo, mas influencia muito mais do que gostamos de admitir.

E por último, mas não menos importante: encontrar um médico que seja parceiro. Eu sei que nem sempre acontece à primeira tentativa, mas não devemos desistir. Na minha visão, ter um médico que nos acompanhe nesta transição e que seja parceiro ao longo de todo o processo é um pilar central para viver melhor esta fase.

Na preparação da menopausa há consultas importantes e orientações que se devem seguir?

Sem Pausa Menopausa Rita Avelar da Silva

Sim. A perimenopausa é uma excelente oportunidade para fazer uma avaliação global da saúde, esclarecer dúvidas que muitas vezes foram sendo adiadas ao longo dos anos e implementar medidas sólidas de prevenção de doenças a longo prazo.

Relativamente às especialidades médicas envolvidas, o acompanhamento pode ser feito pelo médico de família, pelo ginecologista ou pelo endocrinologista. Um conselho que costumo dar é perguntar sempre, de antemão, se o médico tem interesse e experiência na área da menopausa. Nem todos os médicos, mesmo dentro destas especialidades, se dedicam ou se especializam neste tema. Para evitar frustrações, vale a pena confirmar antes de marcar a consulta.

Em situações específicas, pode ser necessário recorrer a outras especialidades. Por exemplo, à cardiologia, quando existem fatores de risco relevantes ou doença cardiovascular; ou à psiquiatria ou psicologia, quando há sintomas depressivos, ansiedade ou maior vulnerabilidade emocional. Tudo depende do contexto individual. A consulta de nutrição pode também ser muito útil para ajustar a alimentação a esta fase, apoiar a gestão do peso e dos sintomas e reduzir o risco de doenças a longo prazo.

Nesta fase, faz sentido realizar uma avaliação do risco cardiovascular, incluindo medição da tensão arterial, perfil lipídico e glicemia, uma vez que a transição para a menopausa está associada a alterações metabólicas e a um aumento do risco cardiovascular. Deve também ser discutida a saúde óssea, revista a história familiar e analisado o estilo de vida.

É igualmente fundamental manter todos os rastreios recomendados em dia: rastreio do cancro da mama, rastreio do cancro do colo do útero, rastreio do cancro colorretal e outros exames preventivos indicados para a faixa etária e o perfil de risco.

Durante a perimenopausa é também importante discutir a contraceção. A fertilidade diminui de forma significativa, mas não é zero, e o risco de gravidez continua a existir. Além disso, nem todos os métodos contracetivos são os mais adequados para esta fase da vida, pelo que faz sentido reavaliar as opções disponíveis.

Mas não existe uma abordagem única que sirva para todas as mulheres. A preparação para a menopausa deve ser individualizada, tendo os fatores de risco, os sintomas e os objetivos de cada mulher. Por isso, é fundamental contar com um médico que acompanhe esta fase e que seja um verdadeiro parceiro ao longo do processo.

O que é a terapêutica hormonal da menopausa?

Sem Pausa Menopausa

A terapêutica hormonal da menopausa é, sem dúvida, um hot topic e um assunto que levanta muitas dúvidas. Na verdade, o princípio é relativamente simples.

Na transição para a menopausa, os ovários deixam progressivamente de produzir estrogénios e progesterona. É essa diminuição hormonal que está na origem de muitos dos sintomas mais conhecidos, como os afrontamentos, suores noturnos, alterações do sono e do humor ou secura vaginal. A terapêutica hormonal funciona, de forma resumida, devolvendo essas hormonas que o corpo deixou de produzir naturalmente, com o objetivo de aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

Os estrogénios ajudam a reduzir sintomas como afrontamentos, suores noturnos e secura vaginal. Podem também ter efeitos positivos no sono e no humor, além de contribuírem para a proteção da saúde óssea. Nas mulheres que têm útero, é necessário associar também um progestativo, cuja função é evitar o crescimento excessivo do endométrio (a camada interna do útero) quando se utilizam os estrogénios.

Os estrogénios podem ser administrados de várias formas: comprimidos por via oral, adesivos, géis ou sprays aplicados na pele. Em muitas mulheres, as formulações administradas pela pele são preferíveis, sobretudo quando existem determinados fatores de risco cardiovasculares. Existem também cremes, géis ou comprimidos vaginais quando o objetivo é tratar sintomas vulvovaginais; nestes casos, falamos de terapêutica hormonal local.

A terapêutica hormonal da menopausa está indicada para aliviar sintomas associados à diminuição dos estrogénios, como afrontamentos, suores noturnos ou sintomas geniturinários e, em alguns casos, para proteger a saúde óssea. Está também indicada nas situações de insuficiência ovárica prematura, quando a menopausa ocorre antes dos 40 anos. As principais sociedades médicas nacionais e internacionais reconhecem que, quando iniciada antes dos 60 anos ou até 10 anos após o início da menopausa, os benefícios tendem a superar os riscos na maioria das mulheres.

Ainda assim, não é uma terapêutica obrigatória nem um “elixir da juventude”. É uma opção que deve ser discutida caso a caso, com informação clara e acompanhamento médico adequado.

É importante também esclarecer que as hormonas manipuladas, mandadas preparar em farmácias comunitárias, supostamente de forma “personalizada”, são desaconselhadas pelas principais sociedades científicas nacionais e internacionais. Ao contrário dos medicamentos aprovados, estas preparações não estão sujeitas ao mesmo nível de regulação, controlo de qualidade e estudos rigorosos de segurança e eficácia. Quando falamos de terapêutica hormonal, estamos a falar de medicamentos e, por isso, devemos privilegiar formulações estudadas e aprovadas pelas entidades reguladoras.

E qual é a diferença desta terapêutica para a indicada em consultas de anti-aging? O que devemos saber?

Sem Pausa Menopausa

A terapêutica hormonal da menopausa é uma intervenção médica com indicações bem definidas. É utilizada principalmente para aliviar sintomas associados à diminuição dos estrogénios e baseia-se em evidência científica, utilizando medicamentos que foram amplamente estudados e aprovados para esse fim.

Já na chamada medicina anti-aging, o enquadramento costuma ser diferente. O foco deixa muitas vezes de ser o tratamento de sintomas específicos e passa a ser a promessa de “otimização hormonal”, rejuvenescimento ou prolongamento da juventude. No entanto, não existe comprovação científica sólida de que a terapêutica hormonal deva ser utilizada para prevenir o envelhecimento, e as principais sociedades científicas não recomendam esse uso.

Muitas vezes são propostas intervenções que vão além da terapêutica hormonal da menopausa estudada e aprovada para tratar sintomas. Essas intervenções podem incluir combinações de vários tipos de hormonas manipuladas, implantes hormonais, doses elevadas de testosterona, suplementos ou até fármacos utilizados fora das indicações aprovadas, com o objetivo de retardar o envelhecimento. O problema é que a medicina antienvelhecimento, embora seja um campo interessante do ponto de vista científico, ainda carece de evidência robusta para muitas das intervenções que são comercializadas.

Outro ponto importante é a regulação. A terapêutica hormonal da menopausa utiliza medicamentos aprovados pelas autoridades regulamentares – em Portugal, o Infarmed – sujeitos a controlo rigoroso de qualidade, segurança e eficácia. Já algumas abordagens na área do anti-aging recorrem a formulações manipuladas ou a esquemas personalizados que não passaram pelos mesmos processos de validação científica e regulamentar.

A chamada medicina anti-aging é um campo ainda em desenvolvimento, onde coexistem, por um lado, investigação promissora e, por outro, propostas comerciais pouco fundamentadas. O envelhecimento é uma realidade universal e o envelhecimento das mulheres, em particular, é uma área muito apetecível para exploração comercial, alimentada pela pressão social de que a mulher não pode envelhecer.

Vejo que existe atualmente o risco de promoção de produtos caros, sem base científica sólida, que criam falsas expectativas e desviam as pessoas de intervenções com benefício comprovado e que sabemos que funcionam – como praticar exercício físico, ter uma alimentação equilibrada, não fumar, evitar o álcool, dormir bem, gerir o stress e manter laços sociais e familiares fortes.

É importante ter claro que hormonas não são cosméticos; são medicamentos e devem ser usadas com critério, indicação clínica e acompanhamento médico rigoroso baseado em evidência.

Quando falamos em medicina ou tratamentos baseados na evidência, o que significa exatamente?

Medicina baseada na evidência significa tomar decisões clínicas com base nas melhores provas científicas disponíveis e não apenas na opinião pessoal ou em tendências do momento.

Na prática, isto quer dizer que os profissionais de saúde recorrem a estudos clínicos bem conduzidos para perceber que tratamentos funcionam, quais são seguros e para quem fazem realmente sentido. Depois, essa evidência é integrada com a experiência clínica do médico e com as preferências e valores da pessoa que está à sua frente.

Nem todos os estudos têm o mesmo peso. Por exemplo, ensaios clínicos aleatorizados, revisões sistemáticas e meta-análises bem conduzidas oferecem evidência mais robusta do que estudos pequenos, relatos de caso ou testemunhos individuais. A medicina baseada na evidência ajuda-nos precisamente a distinguir aquilo que está solidamente demonstrado do que ainda é apenas uma hipótese, um entusiasmo inicial ou simplesmente marketing.

Isto é muito importante na menopausa, porque é uma área onde coexistem mitos antigos, receios desatualizados e um mercado muito ativo a promover soluções “milagrosas”, desde suplementos a intervenções ditas anti-aging, muitas vezes sem provas sólidas.

No fundo, a medicina baseada na evidência permite-nos escolher o tratamento com maior probabilidade de benefício e menor risco e protege-nos de intervenções desnecessárias, promessas exageradas e danos evitáveis. É essa abordagem que eu defendo e que procuro trazer para o projeto Sem Pausa.

De que forma é que o estilo de vida pode impactar os sintomas da menopausa e a saúde a longo prazo?

Sem Pausa Menopausa

Todos os anos, no Dia Mundial da Menopausa, a International Menopause Society destaca um tema que reflete os principais desafios desta fase e os avanços mais relevantes da investigação científica. Este ano, o foco foi a Medicina do Estilo de Vida, o que reforça bem a importância deste tema.

Quando falamos de medicina do estilo de vida, não estamos a falar apenas de sugestões ou “dicas”, mas de uma abordagem estruturada, baseada em evidência científica sólida e reconhecida internacionalmente como um dos pilares fundamentais da saúde durante a transição para a menopausa.

No documento publicado, a International Menopause Society identifica seis pilares essenciais – que, na verdade, são bem conhecidos: alimentação saudável, atividade física regular, sono de qualidade, gestão do stress, redução do consumo de álcool, cessação tabágica e relações sociais saudáveis. A diferença é que hoje sabemos que estes pilares têm impacto concreto na redução de sintomas da menopausa, na melhoria do bem-estar e na prevenção de doenças.

Atuar nestes pilares pode fazer uma grande diferença na forma como vivemos esta fase. Pode ajudar a reduzir a intensidade dos afrontamentos, melhorar a qualidade do sono, estabilizar o humor, controlar melhor o stress e facilitar a gestão do peso. Mas vai muito além disso, na medida em que influencia de forma decisiva o risco de doença cardiovascular, osteoporose e até declínio cognitivo no futuro.

Dou alguns exemplos concretos.

Um padrão alimentar rico em vegetais, fruta, leguminosas, azeite, peixe e frutos secos está associado, além dos benefícios bem conhecidos para a saúde cardiovascular, a menor intensidade de afrontamentos. Trata-se de um padrão alimentar naturalmente anti-inflamatório, que melhora a sensibilidade à insulina, contribui para reduzir a gordura abdominal e facilita o controlo do peso. Pode ainda ter efeitos positivos na saúde mental e na função cognitiva, o que é particularmente relevante nesta fase da vida. E num site dedicado à beleza importa também referir que este padrão alimentar pode contribuir para uma pele mais saudável e luminosa ao longo do tempo.

O exercício físico é uma das ferramentas mais potentes que temos nesta fase da vida. O exercício aeróbico desempenha um papel fundamental na proteção da saúde cardiovascular, enquanto o treino de força é essencial para preservar a massa muscular e a densidade óssea, que tendem a diminuir após a menopausa. Manter a nossa massa muscular significa também preservar mobilidade, autonomia e independência no futuro. A massa muscular desempenha ainda um papel central na regulação do metabolismo. Músculos fortes ajudam o corpo a processar de forma mais eficiente os hidratos de carbono e as gorduras. A perda de massa e força musculares, associada a um metabolismo disfuncional, está frequentemente na origem de várias doenças crónicas, como a diabetes e a obesidade.

Além disso, as mulheres que praticam exercício de forma regular tendem a ter menos ansiedade, menos stress e menos sintomas depressivos. Referem mais energia, maior sensação de resiliência e autoestima. Dormem melhor, sentem menos “névoa mental” e conseguem concentrar-se com mais facilidade. O exercício tem ainda efeito anti-inflamatório, estimula os mecanismos antioxidantes naturais do organismo e melhora a capacidade de regulação da temperatura corporal, podendo ajudar a atenuar os afrontamentos. Além disso, ao aumentar o fluxo sanguíneo e exercer efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios, o exercício pode também contribuir para a saúde da pele.

Os benefícios são muitos. Costumo dizer, meio a brincar, mas com algum fundo de verdade: se o exercício fosse um medicamento, todas queríamos tomar. Não há menopausa nem envelhecimento saudável sem exercício, e nós, mulheres, temos de interiorizar isso.

O tabaco e o consumo excessivo de álcool agravam os sintomas e aumentam o risco cardiovascular, que tende a subir após a menopausa. Deixar de fumar reduz significativamente esse risco e pode também diminuir a intensidade dos afrontamentos. Para quem fuma, este é um momento crucial para procurar ajuda.

Há ainda outro fator que muitas vezes esquecemos: as relações sociais e o suporte emocional. Mulheres com redes de apoio sólidas tendem a relatar menos sofrimento associado aos sintomas. É fascinante perceber como a qualidade das nossas relações pode influenciar não só a experiência da menopausa, mas também a nossa saúde e felicidade.

Poderia continuar com mais exemplos, mas a mensagem essencial já está transmitida. Independentemente das nossas circunstâncias de vida, há sempre algo que podemos melhorar. A menopausa é um momento-chave para cuidar de nós e as escolhas que fazemos agora vão influenciar a nossa saúde aos 60, 70 e 80 anos. O estilo de vida não substitui tratamentos médicos quando estes estão indicados, mas é a base sobre a qual tudo o resto assenta.

Relativamente à suplementação o que é realmente importante nesta fase da vida?

Sem Pausa Menopausa

A primeira ideia que gosto sempre de clarificar é que a perimenopausa e a menopausa não causam, por si só, nenhuma deficiência nutricional específica. Portanto, não existe nenhum suplemento que seja “obrigatório” para todas as mulheres nesta fase.

Sempre que possível, devemos tentar obter os nutrientes através da alimentação. A abordagem deve ser food first: uma alimentação variada e equilibrada continua a ser a base para garantir o aporte adequado de vitaminas e minerais.

Dito isto, há alguns nutrientes que merecem atenção particular nesta fase.

Vitamina D

Diria que esta é provavelmente a mais importante e a que está mais próxima de poder ser necessária para a maioria das pessoas. A vitamina D é essencial para a saúde óssea, mas também tem impacto em vários órgãos e sistemas do nosso corpo, incluindo o sistema imunitário. Após a menopausa, manter níveis adequados é particularmente importante para reduzir o risco de perda óssea e fraturas. A prevalência de deficiência de vitamina D é elevada em Portugal e, por isso, faz sentido discutir com o médico assistente a possibilidade de avaliar os níveis e, se necessário, fazer suplementação com supervisão.

Cálcio

É fundamental garantir um aporte adequado para a saúde óssea e para reduzir o risco de fraturas. No entanto, deve privilegiar-se sempre a alimentação – através de laticínios (2 a 3 porções por dia), sardinha em lata com espinhas, vegetais de folha verde, leguminosas e frutos secos. A suplementação só deve ser considerada quando a ingestão alimentar é insuficiente. De forma geral, as recomendações situam-se entre 700 e 1200 mg de cálcio total por dia (alimentação + suplemento, se necessário) e 400 a 1000 UI de vitamina D, dependendo da situação individual.

Ácidos gordos ómega-3

Têm benefícios documentados na saúde cardiovascular e podem também ter impacto positivo na saúde cerebral, nos sintomas depressivos e na função cognitiva. Idealmente, devem ser obtidos através da alimentação, com consumo de peixe gordo duas a três vezes por semana. A suplementação pode ser considerada quando esse consumo é baixo ou inexistente, ainda que os benefícios da suplementação sejam modestos. Quem optar por suplementar deve escolher produtos de boa qualidade, testados para a ausência de metais pesados, e fazê-lo com orientação de um profissional de saúde, uma vez que podem existir interações com medicamentos.

Vitamina B12

Também merece alguma atenção, não porque a menopausa cause deficiência, mas porque nesta fase da vida podem coexistir fatores que aumentam o risco. Com o avançar da idade, produzimos menos ácido gástrico, o que pode dificultar a absorção da vitamina B12. Além disso, dietas vegetarianas ou veganas, alguns problemas gastrointestinais (como gastrite atrófica ou cirurgia bariátrica) ou o uso prolongado de medicamentos como a metformina ou os inibidores da bomba de protões podem aumentar o risco de défice. A vitamina B12 é essencial para o bom funcionamento do sistema nervoso e para a produção de glóbulos vermelhos. Níveis baixos podem manifestar-se como fadiga, dificuldades de concentração ou alterações cognitivas. Nestes casos, faz sentido avaliar e suplementar, se necessário.

Magnésio

É muitas vezes procurado como apoio ao sono, mas é importante sermos realistas quanto à evidência. Existem estudos observacionais que sugerem que níveis adequados de magnésio estão associados a melhor qualidade subjetiva do sono, mas os ensaios clínicos mostram benefícios modestos e com qualidade metodológica variável. Pode fazer sentido como complemento em mulheres com défice documentado ou ingestão insuficiente, mas não é uma solução universal nem substitui estratégias estruturadas para melhorar o sono.

A suplementação na menopausa, como em qualquer fase da vida, deve ser criteriosa e personalizada. Não existe um “pacote universal”. A base continua a ser uma alimentação equilibrada, exercício físico e um estilo de vida saudável. Os suplementos podem ser um complemento útil em situações específicas, mas não substituem os pilares fundamentais da saúde.

Além disso, é importante ter em conta que, ao contrário dos medicamentos, os suplementos alimentares não estão sujeitos ao mesmo nível de controlo e regulação. Não existe a mesma exigência de estudos de eficácia e segurança, nem de padronização rigorosa da dose, da pureza ou da composição. Podem também conter contaminantes e têm sido descritos casos de efeitos adversos graves, como lesões hepáticas.

Quem optar por usar suplementos deve ter alguns cuidados: falar com o médico ou farmacêutico antes de iniciar, sobretudo se existirem doenças ou toma de medicação, uma vez que podem existir interações entre suplementos e medicamentos; não substituir tratamentos prescritos sem orientação; escolher marcas de confiança, preferencialmente adquiridas em farmácia ou parafarmácia; evitar compras online de origem duvidosa e estar atenta a eventuais efeitos adversos.

Isto não significa que todos os suplementos sejam inúteis ou perigosos. Alguns podem ter utilidade em situações específicas, mas devem ser escolhidos com cuidado e avaliados com o mesmo rigor que qualquer outra opção terapêutica.

Rita Avelar da Silva, farmacêutica, nutricionista e fundadora do projeto Sem Pausa

 

Acredito que informação clara e baseada em evidência é uma das ferramentas mais importantes para que as mulheres possam cuidar melhor de si em todas as fases da vida. Projetos como o Sem Pausa mostram que falar de menopausa com ciência, transparência e sem estigmas é essencial para transformar a forma como vivemos esta transição. Mais do que um fim, pode ser o início de uma nova etapa com mais consciência, liberdade e bem-estar!

 

Fotografia: gentilmente cedida pela Rita Avelar da Silva

Posts relacionados

Yoga Facial by Paula Sá: como unir ciência e bem-estar?

Tive a oportunidade de conhecer de perto o método de yoga facial da Paula Sá durante um workshop que fiz com a própria Paula, e foi uma experiência que mudou completamente a minha perceção sobre o cuidado do rost...

Março 25, 2026

Lusipure, a nova expressão do luxo português na cosmética

A Lusipure nasce de uma ideia clara: valorizar matérias-primas portuguesas, elevando-as a um patamar de cosmética premium internacional. Inspirada pela biodiversidade do nosso país, a marca assenta em dois ingred...

Março 1, 2026

Cosmética coreana: o fenómeno MiiN em Portugal

Não fui uma early adopter da cosmética coreana principalmente por um motivo: os 10 passos da rotina de há 10 anos não me faziam sentido na sua génese. Mas tem havido claramente uma evolução desde essa altura. Est...

Janeiro 15, 2026

Comenta este post

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

As seguintes regras de RGPD (Regulamento Geral Proteção de Dados) terão de ser lidas e aceites:
Este formulário armazena o teu nome, e-mail e conteúdo para que possamos acompanhar os comentários colocados no site. Para mais informações, consulta a nossa política de proteção de dados, onde obterás mais informações sobre onde, como e por que armazenamos os teus dados.

recebe as novidades beautyst

    A

    Aceito as condições gerais. Consulta a nossa política de proteção de dados. Este website está protegido pelo reCAPTCHA e a Política de Privacidade e Condições do Serviço do Google são aplicáveis.

    My beauty Wishlist

    Copyright Beautyst . 2026