Cabelo branco, coloração e a opinião de 3 dermatologistas

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Este é um dos assuntos que mais me pedem para falar – cabelo branco e o que fazer. Eu compreendo bem a questão. Se por um lado nos sentimos jovens por dentro, por outro quando o primeiro cabelo branco surge na nossa cabeça deixa-nos com aquela óbvia sensação de que “estamos a ficar velhas”. Senti isso quando vi o meu primeiro cabelo branco! Neste momento ainda são poucos. Tenho cortado rentes sempre que os vejo (mas só porque é um em cada sítio) e tenho de pensar melhor sobre a estratégia que quero seguir. Não me vejo para já a pintar o cabelo. Adoro cabelos virgens, e para além disso, por ter uma alopécia prefiro manter os comprimentos saudáveis e hidratados (já basta a alopécia). Pedi por isso a três dermatologistas que nos falassem sobre este tema. Por que ficamos com cabelo branco (Dra. Isabel Conchon Santos), se as tintas provocam alergias (Dra. Helena Melo) e se pintar faz mal ao cabelo (Dr. Rui Oliveira Soares). Qual a opinião destes três dermatologistas?

Cabelo branco – o que é?

Tal como na pele, a cor natural do cabelo é devida a um pigmento chamado melanina, produzida pelos melanócitos que existem na bainha da haste capilar. A melanina é uma combinação de 2 pigmentos: a eumelanina, responsável pela cor castanha e preta e a feomelanina, pelas cores vermelha e loura. É a diferente quantidade e proporção destes 2 pigmentos que dá as enormes variações de cor e tonalidade dos cabelos. Nesta síntese de melanina intervêm numerosos fatores, sendo considerados os mais importantes, os raciais, de género, genéticos e hormonais. É um processo muito complexo com intervenção de células percursoras, de enzimas, fatores hormonais, migrações celulares, entre outros.

Quando começa a aparecer o cabelo branco e qual a sua causa?

Com a idade começa a aparecer o cabelo branco. Nos caucasoides, isto acontece a meio da década dos 30 anos. Nos asiáticos no fim dos 30 anos e nos africanos a meio dos 40 anos. De um modo genérico pode-se dizer que aos 50 anos, 50% da população terá 50% de cabelo branco.

A sua causa continua a ser investigada. Sabe-se que há uma gradual diminuição das células percursoras dos melanócitos na haste capilar. Uma das teorias mais defendidas diz que tal se deve ao stress oxidativo dentro das células, com acumulação de produtos tóxicos, como o peróxido de hidrogénio, que vão lesar o DNA das células. Haveria também alterações da própria haste capilar que também contribuiriam, tal como outros fatores sistémicos e hormonais.

Mas haverá ainda muitas outras causas que desconhecemos. Há casos descritos que certos doentes submetidos a radioterapia ou após doenças inflamatórias graves do couro cabeludo voltaram a ter a cor original do cabelo.

Soluções para o cabelo branco?

Com tantos fatores intervenientes é sempre possível haver comercialização de produtos que publicitam reverter o cabelo branco. Uns afirmam que o composto terá propriedade de defender a célula do dano oxidativo, outros que descobriram uma molécula que é semelhante à MSH, uma hormona natural, que estimula a síntese de melanina, outros através da tirosinase, uma enzima muito importante nesta síntese.

No entanto estas descobertas não são demonstradas através de ensaios científicos e não há estudos independentes. Como tal, na dermatologia não aconselhamos, de momento, nenhum destes tratamentos.

Dra. Isabel Conchon Santos, dermatologista

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Tipos de coloração para cabelo branco e alergias

A henna, de origem vegetal (folhas da planta Lawsonia inermis secas e convertidas em pó) já era utilizada no antigo Egito, há quatro mil anos para coloração do cabelo branco. No século XIX dois químicos franceses, os irmãos Lefevre, inventaram o processo de coloração oxidativa do cabelo.

As tintas capilares classificam-se em permanentes, semi-permanentes e temporárias. Embora todas elas possam causar eczemas alérgicos de contacto, aquelas que são mais frequentemente responsáveis são as tintas permanentes. Estas tintas contêm um alergeno potente: a parafenilenodiamina (PPDA). Uma vez adquirida a alergia, persiste muitos anos. Estas tintas também podem conter aminofenol e resorcinol sendo estes alergenos potentes.

Suspeita de alergia a tintas capilares – o que fazer?

Perante suspeita de alergia a tintas capilares é fundamental realizar testes de alergia denominados testes epicutâneos de contacto. Estes testes permitem comprovar quais os componentes responsáveis pela alergia e procurar alternativas.

O que se tem feito ultimamente para diminuir o potencial alérgico da PPDA é:

  • Comercialização de tintas contendo hidroxietilo-PPD e metoximetil-PPD
  • Aplicação de antioxidantes (vitamina C) na pele do couro cabeludo previamente à aplicação da tinta capilar
  • Incorporação de antioxidantes nas tintas sem comprometer o processo de oxidação
Quando se é alérgico a tintas capilares permanentes e se pretende pintar cabelo branco, o que se pode fazer?

Deve optar-se por uma coloração com henna vegetal ou então madeixas com tintas permanentes (a técnica tem que ser cuidadosa e não tocar com a tinta no couro cabeludo). Eventualmente poderá fazer-se uma coloração com tintas semi-permanentes mas deve-se certificar que não contêm derivados da parafenilenodiamina.

 Dra. Helena Melo, dermatologista

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Pintar estraga ou faz cair o cabelo? Que tipo de tintas devo / posso usar?

As tintas capilares podem determinar 2 tipos de problemas:

  1. Podem provocar eczemas de contacto, que podem ser irritativos ou alérgicos. A pele fica vermelha e descamativa e surge ardor ou comichão. A forma aguda trata-se com corticoides. A alergia a um determinado componente pode ser confirmada com um exame de dermatologia – provas de contacto – e em tal caso não se poderão usar tintas que contenham esse componente.
  2. Podem determinar uma agressão química da haste pilar (cabelo), sobretudo se for repetida. Esta agressão química da haste tende a ser maior quanto maior a durabilidade da coloração. Ou seja, uma tinta permanente, que dura mais tempo (por vezes mais de 6 semanas) tende a agredir mais que uma tinta semi-permanente, que dura menos tempo. Não existem propriamente tintas proibidas, mas como regra as tintas que duram menos fazem menos mal. Como regra, com tintas permanentes não se deve pintar ou descolorar (também é agressão química) mais que uma vez por mês.

Dr. Rui Oliveira Soares, dermatologista

Assumir o cabelo branco?

Este é um tema em que tenho vindo a pensar, sem pressões. Percebo que mulheres muito jovens não queiram ter cabelos brancos. Tenho a sorte de ter muito poucos e afinal já tenho 42 anos. Não sei se quero entrar na “escravatura” das tintas, não só pelo efeito raiz e isso me obrigar a constantes procedimentos de cor (talvez optasse por uma tinta semi-permanente para evitar esse efeito) mas também pelos potenciais danos nas hastes capilares.

Confesso que dentro de uns anos conviver com um cabelo grisalho, não me incomoda nada, acho lindo! Talvez por isso nunca tenha pensado em pintar antes. Penso que a sociedade ainda convive mal com este tema. O cabelo branco parece ser sinónimo de desleixo. Mas pergunto: e um cabelo pintado, ressequido e acima de tudo a prisão (e o dinheirão!) a que isso nos obriga, justificará?

Por isso partilho aqui algumas imagens que me inspiram e que mostram o potencial do cabelo branco ou grisalho (bonito e cuidado).

cabelo branco

A atriz brasileira Samara Felippo, irreconhecível mas linda com o seu natural cabelo grisalho aos 42 anos. Fotografia: Juliana Coutinho

 

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Campanha Pantene #PowerOfGrey

 

cabelo branco

Roisin O’Connor, a mais jovem modelo de cabelo branco White Hot Hair, aos 41 anos

 

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A editora de moda Sarah Harris da Vogue UK, aos 39 anos (começou a ter cabelos brancos aos 16/17)

 

Para quem procura cuidados de cabelo, recomendo a leitura destes três artigos:

Cronograma capilar – para comprimentos mais bonitos e hidratados

Como lavar o cabelo – de forma a não ressecar os comprimentos

Como fiquei sem frizz no cabelo – para um cabelo com aspeto mais alinhado

 

Quero mostrar em breve algumas opções de produtos que reclamam efeito sobre o cabelo branco, tintas capilares e soluções express para cabelo branco! E por aí, qual a abordagem a este tema? O cabelo branco é considerado um inimigo?

Fotografia: Márcia Soares

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8 comentários

  1. Carla diz:

    Bom dia, Joana

    Gosto mesmo muito das suas publicações, por serem sempre tão elucidativas.
    Também me deparo com esta questão e inicialmente cortava os cabelos brancos. Embora ainda não tenha muitos, deixei de o fazer.
    Por acaso estava a pensar adquirir o produto da Phyto ou da Kerastase que é indicado para estas situações, mas senti-me na dúvida quanto à eficácia. Acha que será um dinheiro mal gasto?
    Obrigada e um beijinho

    1. Joana Alvares diz:

      Olá Carla! Viva! Vou abordar esse tema em breve, para complementar este artigo, no entanto tenho de referir que no caso do produto da Phyto, o RE30, o mesmo tem de ser usado diariamente para se atingir a eficácia comunicada pela marca (+ 38% de repigmentação natural dos cabelos em 3 meses). Estes resultados foram no entanto testados num número limitado de indivíduos, 32. No meu caso, que já faço um tratamento diário para a alopécia androgenética, tenho muita dificuldade em conseguir usar um segundo produto diariamente no couro cabeludo. Quanto à Kérastase, a que produto te referes? Um beijinho!

    1. Joana Alvares diz:

      Olá Carla! Penso que este produto não mostra eficácia na redução dos cabelos brancos, eu não encontrei essa informação em lado nenhum. Aliás, se vires bem o que está referido na página: “O Sérum Jeunesse é um tratamento para cabelos brancos com tendência a perder densidade. Dá cor aos cabelos brancos, levanta as raízes e aumenta o volume, devolvendo-lhes a suavidade da juventude.” O “dar cor” aos cabelos brancos, parece-me estar mais relacionado com a cor branca (pois o cabelo pode ter tendência a amarelar). Um beijinho!

  2. Carla diz:

    Muito obrigada, Joana

    um beijinho

    1. Joana Alvares diz:

      Beijinhos!

  3. Maria isa bel Caeiro diz:

    Bom dia, dogro de alupecia desde os meus dozes anos, derivado a uma injeção k levei enganada, a partir dai, tenho tido falhas de cabelo, agora à três anos fiz quimioterapia e o cabelo não voltou mais, sobracelhas e pestanas, a minha pergunta haverá algum médico k me pudesse ver zona alentejo( Évora)

    1. Joana Alvares diz:

      Olá Maria Isabel, não tenho conhecimento de um especialista em cabelo nessa zona. Podes tentar ver se a Dra. Filipa Ventura está a fazer teleconsulta nesta fase, na Clínica Epidermis (Porto) ou o Dr. Rui Oliveira Soares no Hospital Cuf Descobertas ou Clínica Dermochiado (Lisboa). Por tudo o que referes deves procurar ajuda o mais brevemente possível. Um grande beijinho, Joana

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